É com enorme prazer, que hoje temos como nosso convidado o arquiteto e professor Manuel Vicente. Seja bem-vindo!
Muito obrigado, o prazer é meu também.
Queríamos começar por pedir que nos contasse um pouco do seu percurso académico como aluno, se teve professores marcantes e como era o curso de arquitetura na sua altura.
Já lá vão mais de 50 anos. Devo ter entrado para Belas Artes em 53 ou 54, não me lembro bem.
Eu sempre andei em colégios, morávamos na Parede, portanto andei sempre na Parede. Tinha problemas de mobilidade e os meus pais tinham medo que eu me metesse no comboio. Havia colégios melhores no Estoril, mas como aquele era ali ao pé de casa, fiquei lá. É um colégio que não tem história e eu acho que a primeira vez que senti prazer de estar como estudante foi, de facto, nas Belas Artes.
Ele era este tipo de professor, mas que tinha de facto uma relação formal, eu penso que ele gostaria que não fosse tão formal, mas a sociedade lisboeta dessa altura não era muito de facilitar um diálogo intergeracional. O professor era um professor, não dava confiança ao aluno. Depois dizia umas graças, mas o aluno não tinha que responder, era sempre uma relação distante.
Como foi o seu percurso depois da universidade? Esteve na Índia, em Macau, depois foi estudar para os Estados Unidos.
Entre a escola de Belas Artes, que eu acabei em 1960/61, e a minha ida para os Estados Unidos em 1968, passou muito tempo. Estive em Goa primeiro, estive um ano em Macau, voltei um ano a Lisboa, onde trabalhei com a Conceição Silva, depois fui para o Funchal, onde trabalhei com o Góis Ferreira. Depois veio-me essa vontade de ir para a América, e fui através de uma bolsa Fullbright… Pus em primeiro lugar Berkley, que era onde se estava a passar tudo naquela altura, em 1968. Depois tinha posto Columbia, porque era Nova Iorque, e eu achava que em Nova Iorque se passavam coisas muito interessantes, e, no fim, tinha posto Filadélfia, por causa do Kahn. Mas digamos que ia por razões sociais, sociológicas, interessava-me perceber o que se passava e digamos que as escolhas académicas eram importantes, mas eram as menos importantes. E fui aceite em Pensilvânia, na Filadélfia. E quando fui para lá, tinha 33 anos e já tinha construído muito….
Em Macau, fez muitos projetos em muito pouco tempo.
Fiz muitos, em cinco anos fiz e construí oito ou nove edifícios, era praticamente tudo encomenda pública, só tive dois clientes privados. Para um fiz umas moradias numa rua difícil, foi o meu primeiro trabalho – quer dizer, tinha feito a alteração da casa dos meus pais – mas o primeiro trabalho inteiramente novo foram essas quatro moradias em banda. Fiz também uma igreja que depois não se construiu, para uma irmandade missionária. Fiz uma habitação para realojamento de noventa apartamentos com um programa mínimo, numa grande zona de Macau, que estava cheia de população deslocada – depois das grandes convulsões que houve na China, houve muita gente que ficou deslocada e emigrou para Macau. Como Macau tinha muitos terrenos vazios, foram construindo bairros de barracas. Era um mundo muito diverso de camponeses, no meio de uma cidade, que iam criando hábitos urbanos. Os miúdos eram muito engraçados, de manhã iam todos para a escola, elas de saia e meia preta, e os miúdos de calça cinzenta e blazer, e saíam todos dos bairros das barracas.
E quando chega aos Estados Unidos, vai já com uma vivência diferente, de viver em vários continentes e já com um percurso profissional que lhe dá outra maturidade.
Eu era o mais velho daquele grupo de pessoas. Concorriam duzentas pessoas, e eles escolhiam vinte…E era engraçado, porque desses vinte candidatos, catorze eram estrangeiros! Havia um tipo muito engraçado, um judeu, mas era de África do Sul, havia um Libanês, havia Chineses, havia Japoneses, havia Alemães, Suíços, havia eu que era Português. Os americanos não eram a maioria. Era engraçado, passávamos a vida em casa uns dos outros, mas havia uma diferença muito grande de experiências e de cultura.
Estava a dizer que nos Estados Unidos percebeu que a investigação ia um pouco para além do ofício. Essa ideia de arquitetura como ofício poderia ampliar muito mais o conhecimento sobre arquitetura.
Sempre pensei como arquiteto, e digo uma coisa que pode ser um pouco pretensiosa: nos livros só esclareci melhor aquilo que eu já sabia, ou aquilo que eu já intuía. Nunca aprendi nada com um livro! Lembro-me de ficar muito contente e dizia: “Pois é, que bem, é exatamente isto! È isto mesmo que eu queria dizer!” Isso não só em relação à arquitetura, como à vida em geral. Os livros para mim sempre foram pontos de encontro comigo mesmo, esclarecedores, explicitadores das intuições do meu próprio funcionamento, da minha relação com o observador, da minha observação do real, da minha interpretação, que depois ficava mais esclarecida, mais aclarada, mais bem dita do que aquilo que eu era capaz de dizer sem essa iluminação que os livros me traziam.
Esse capital cultural profundo de que fala. Acha que é ainda hoje um verdadeiro capital? Uma mais-valia para os nossos arquitetos recém-formados? Muitos deles vão trabalhar noutros países.
Eu acho que o cosmopolitismo é uma coisa muito importante, e acho a minha maneira de ser bastante cosmopolita.
Eu acho os brasileiros profundamente cultos, eles chegam aqui e ninguém lhes tira o samba, e a feijoada. O brasileiro está seguro de si em muitos aspetos: pode não ter dinheiro, mas não é um pobre diabo. Tem essas grandes raízes culturais, da comida, da música, do ritmo, do modo de estar, do fascínio, do ser capaz de olhar à volta, de se fascinar com os ruídos, com os sons, com os sabores… Mas acho que quem vai vazio, não só tem pouco para dar, como também se coloca numa posição de grande fragilidade face ao outro, saem sem riqueza nenhuma, estão destinados a ser servos. Quem não diz o que quer, faz o que não quer, faz o que os outros querem. É nesse sentido que eu acho que não se pode mandar as pessoas para a vida tão pouco guarnecidas, com tão pouco capital. Mas, por outro lado, tenho ideia, de colegas vossos que foram para o estrangeiro, e coisas que aparentemente aqui pareciam esquecidas são relembradas, e que têm lá dentro deles uma acumulação maior do que se possa supor.
E qual é o papel do professor?
Eu, como professor, interessa-me muito mais que os alunos descubram aquilo que não sabiam que sabiam. Os exemplos que normalmente damos são para os levar a buscar memórias que eles não sabiam que tinham, intuições, razões pelas quais se sentem bem e não sabem explicar porquê, porque é que chegam a um café e escolhem ir para aquele canto em vez de ir para o outro. Porque é que é um dado adquirido? E valorizar esse adquirido, trazê-lo ao de cima, como na psicanálise, trazer o não dito para a área do dito, ter nomes para aquilo que se sabe, estabelecer conexões que se intuíam mas que se tinha medo de dizer.
Pensando nessa globalidade problemática atual – com o capital a ser posto à frente de tudo – que perspetiva é que tem sobre a potencialidade da arquitetura, ou seja, que mais-valias pode a arquitetura que se faz hoje, ou que se poderá vir a fazer, contribuir para continuarmos a evoluir, para o mundo não estagnar e ficar a olhar para o passado?
Eu sou otimista por feitio e sou otimista por princípio, por ideologia.
O Almada Negreiros, o pintor, uma vez perguntaram-lhe se ele era pessimista ou otimista, e ele disse que não era uma coisa nem outra, porque entre ele e a vida não havia qualquer mal-entendido. Acho uma resposta bastante bonita, nunca me esqueci. Tenho esperança, acho que tudo acaba sempre por se resolver. A curto prazo, se calhar vai ser muito difícil, toda a situação pode vir a ser muito trágica, mas isso tem muito mais importância para vocês do que para uma pessoa que já está de saída…
Embora seja otimista, penso que neste momento não há uma resposta, só se se conseguir ir trabalhar para países em desenvolvimento, penso que aí pode ser muito gratificante. Há lá prazer maior do que ver uma coisa a crescer e a construir-se, a tomar forma. Isto é a felicidade! Como quando o Miguel Ângelo acabou de esculpir uma das suas estátuas famosas e atirou com o martelo à estátua, acho que ainda está lá a marca do martelo, e disse “FALA!” Uma pessoa de repente aproxima-se muito do sublime, transforma a matéria bruta, faz significar o insignificado, põe pedra sobre pedra, constrói, faz de facto significar as coisas. Como quando o Lévi-Strauss conta nos “Tristes Trópicos”, na América do Sul, que um feiticeiro identificou 150 diferentes ervas, onde ele só via erva. Esse esforço de nomeação do não nomeado… Está tudo por nomear, ainda há muita coisa por nomear, esse prazer de ir organizando o mundo à nossa imagem e semelhança.
Fotografias: © João Carmo Simões .com – Todos os direitos reservados






