As ações que definem a intervenção urbana das cidades para reposicionar a sua centralidade não podem passar apenas pela reabilitação e revitalização dos centros históricos, pela promoção das zonas urbanas tradicionais ou pelo desfrute de excecionais situações de frentes de água, urbanísticas ou paisagísticas. Mas antes exigem políticas de integração e linhas de orientação estratégica equitativas e integradas, para que se articulem com os espaços heterogéneos e fragmentados conferindo-lhes identidade urbana.
A qualidade do habitar do espaço urbano interessa ser considerada tanto em micro escala como na escala urbana. Uma qualidade de vida que promova equidade, identidade, a boa vizinhança e se traduza na consciência do bem coletivo, decorre da adequação do espaço do habitar e do espaço urbano.
Palavras-chave:
políticas urbanas, reabilitação integrada, exclusão social, cidadania
Estado crítico, contextos na produção urbana e reabilitação integrada
Luísa Saldanha, arquiteta, mestre em Reabilitação da Arquitetura e Núcleos Urbanos, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa,
1. Introdução
O que era no início um processo social transformou-se num fenómeno urbano, em círculo vicioso de marginalização social e desclassificação de tecidos urbanos. As pessoas que ficam no fim da escala social são em grande parte imigrantes, internos ou estrangeiros, ou pertencendo a grupos sociais em transição, como ciganos e trabalhadores migrantes. Na prática funciona uma discriminação de facto, não jurídica, sobre as pessoas e sobre os seus descendentes.
2. A cidade contemporânea e o seu governo
«Only yesterday, metropolitan areas maintained an opposition between “intramural” population and a population outside of city walls; today, the distinctive oppositions between the city’s residents occur only in time: first, long historical spans witch are identified less with the notion of a “downtown” as a whole than with a specific monuments; and second, technological time spans which have no relation to a calendar of activities, nor a collective memory except to that of the computer”. Contributing to the creation of a permanent present whose intense pace knows no tomorrow, the later type of time span is destroying the rhythms of a society which has become more and more debased.» (VIRILIO, 1996)
As funções historicamente reconhecidas ao estado moderno no planeamento e gestão das cidades com objetivos de promoção da coesão social necessitam de encontrar novas formas de providenciar operatividade, sobre programas de conjugação de recursos públicos, privados e outras modalidades colaborativas de gestão de serviços. O papel de estado que provém e redistribui recursos de uma forma providencial, centralizada, impositiva e definidora de modelos, abre-se hoje a novos conceitos de governo, que incluam os agentes económicos e sociais implicados (PORTAS; DOMINGUES; CABRAL, 2007).
A natureza da cidade, a expressão urbana física que adquirem os aglomerados populacionais na atualidade, configura-se na velocidade das transformações e na dificuldade da sua perceção e da sua análise: metapolis (ASCHER), cidade genérica (KOOLHAAS), cidade global (S.Sassen), entre–cidade (SIEVERTS), cidade em rede (DEMATTEIS), cidade de bites (MITCHELL), cidade difusa (INDOVINA), etc. Todas estas leituras, procuram entender a realidade urbana contemporânea: demonstram e revelam a sua autonomia em relação aos instrumentos estratégicos, de planeamento, de regulação e de projeto que se queiram exercer sobre ela e sobre a paisagem que configura.
2. Coesão social e económica. Coesão espacial. Coesão cívica.
“Casas dispersas como ovelhas perdidas e casas aconchegadas umas às outras. Correm em bicos de pés espreitando e voando sobre os vizinhos. Casas subterrâneas miseráveis, nas colinas, pintadas de azul e lilás.” Álvaro Siza, Porto, 1 de março de 2006 (trecho do texto para exposição “desenhos de construção com casa e céu”, Carlos Nogueira, Casa da Cerca, Almada, 2006).
A produção do espaço urbano clandestino, que é necessário reabilitar de uma forma integrada, está ligada a uma condição de cidadania inferior[5]. De 1960 a 1980, mais de 60% dos edifícios novos, na região de Lisboa, foram construídos sem licença de construção. O aumento da imigração para a cidade, a falta de alojamento disponível, a oferta de terrenos subdivididos e loteados com a promessa do direito a construção feita por negociadores oportunistas, sob o olhar tolerante dos poderes públicos, desencadeou a colonização de novos territórios, dentro e nos limites das grandes cidades[6]. Só depois de 1989, com a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia, os poderes municipais começam a introduzir infraestruturas básicas nesses tecidos urbanos, reconhecendo a necessidade de iniciar o processo da sua legalização e qualificação urbanas[7].
As explosões urbanas encontram-se generalizadas na Europa e noutros continentes e não estão necessariamente conotadas à pobreza.
A produção de habitação e a requalificação do espaço urbano terá de ser orientada para o desenvolvimento e terá como destino a qualidade e a melhoria de vida dos habitantes promovendo a iniciativa, capacidade e responsabilidade individual, jurídica[8] e social dos beneficiários dos programas, de uma forma sustentável e que combata o ciclo da pobreza de recursos e de empobrecimento social. O que significa considerar nas suas práticas a vertente social (conceitos de dignidade pessoal, pertença e participação social na comunidade), a vertente política (direitos e deveres de cidadania e participação ativa) e a vertente socioeconómica (igualdade de oportunidades e níveis mínimos de benefícios).
3. Reprodução social e direitos de cidadania
Os programas de habitação social desenvolvidos pelo Estado, nacional como internacionalmente, têm falhado o seu objetivo de retirar as populações da margem da economia e do direito à cidade (urbanidade, cidadania), ora pela forma (inadequado ordenamento territorial e funcional do espaço urbano e arquitetónico), ora pelo conteúdo (gestão descendente, inadequada contratualização de programas e investimentos), reforçando sempre a figura da entidade pública (das entidades e seus mediadores), protetora, providencial e paternalista, diminuindo assim a sua autoridade de interesse coletivo.
4. Qualificação do espaço intersticial, periférico e fragmentado
Em Portugal a metapolização ocorreu “com a sobreposição de três fases clássicas dos processos de urbanização: primeiro a concentração urbana, com a urbanização em mancha de óleo, urbanizando vazios; depois a suburbanização, já numa segunda conquista depois dos perímetros; mais tarde, desurbanização difusa legal e ilegal; para fechar o ciclo, uma reurbanização que é o que se está a dar agora com a nova cultura do centro, da cidade consolidada, embora com um defeito gravíssimo, que é o de nunca se dizer o que se faz à outra, à não consolidada. O que significa que ficamos sem saber o que fazemos às periferias, enquanto que sobre os centros históricos poderemos dizer que já não haverá mais nada a inventar (…) depois de Bolonha e das OPAHs francesas, e das experiências pioneiras portuguesas (Barredo, Évora, Guimarães), entre 74 e 85…” (PORTAS, 2005a: 301).
Saber acompanhar em simultâneo, apropriando e integrando, a mutabilidade permanente do território, os seus vazios e os seus excessos, as polaridades sociais e económicas, as expectativas e expressões da população, com vista à equidade social e sua sustentação, torna urgente políticas que possibilitem a governância, numa forma de políticas integradoras dos diferentes níveis institucionais e civis, globais e locais, aprofundando a democracia representativa por novos processos deliberativos e consultivos, que influenciem a produção do território urbano na sua forma metapolitana.
Até hoje a intervenção mais visível das políticas públicas tem ficado delimitada e circunscrita a programas e áreas de intervenção especiais de habitação social e dos bairros dos grupos sociais classificados como problema, numa perspetiva mais assistencialista do que de desenvolvimento.
[1]”Não há o social por um lado, o território por outro, ou ainda o económico, o ambiente, etc. Todas as dimensões do desenvolvimento estão intimamente articuladas e o grande desafio é o entendimento da complexidade sistémica dos problemas e a capacidade de desencadear uma ação integrada pensando a cidade como um todo”. (GUERRA et al, 2007: 240)
Bibliografia
AAVV – Cidades: Comunidades e Território. Editor Isabel Guerra, nº 15, CET – Centro de Estudos Territoriais. Lisboa: ISCTE –Instituto Superior Técnico, dezembro 2007,
AAVV – Les Règles du Jeu Urbain. Entre Droit et Confiance, direção de Alain Bourdin, Marie-Piere Lefeuvre e Patrice Melé. Paris: Descartes & Cie, 2006.
ASCHER, François – Les Nouveaux Principes de L’Urbanisme. Paris: Éditions de l’Aube, 2004.
BHALLA, Ajit; LAPEYRE, Frederic – “Social Exclusion: Towards an Analytical and Operational Framework.” In Development and Change, nº 28, vol. 3. Oxford, UK: Blackwell Publishers Lda, 1997, 413-33.
Comunidades e Território. Editor Isabel Guerra, nº 15, Lisboa: CET – Centro de Estudos Territoriais, ISCTE –Instituto Superior Técnico, dezembro 2007.
GRANDE, Nuno – O Verdadeiro Mapa do Universo. Coimbra: Edições do Departamento de Arquitetura da FCTUC, 2002.
HARVEY, David – “Cities or Urbanization?”. In City 1/2, (texto policopiado), 1995, 38-46.
HELDER, Herberto – Os Passos em Volta. Lisboa: Assírio e Alvim, 6ª edição, 1994.
KOOLHAAS, Rem – Espacio Basura. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2007.
KOOLHAAS, Rem – La Ciudad Genérica. Barcelona: Editorial Gustavo Gili SA, 2006.
PORTAS, Nuno; DOMINGUES, Álvaro; CABRAL, João – Políticas Urbanas. Tendências, estratégias e oportunidades. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.
ROSSI, Aldo- A Arquitetura da Cidade. Lisboa:Edições Cosmos, 2001.
ROBERTS, Peter; SYKES, Hugh – “Current Chalenges and Future Prospects”. In Peter Roberts e Hugh Sykes(editors). Urban Regeneration. A Handbook. Londres: Sage Publications, 1999, 295-315.
SIEVERTS, Thomas – Cities without cities, Between place and World, Space and Time, Town and Country. Nova Iorque: Routledge, 2003.
VIRILIO, Paul – The Overexposed City. (trad. de L’Espace Critique, Christian Bourgeois, Paris,1984). New York: Zone ½, Urzone Inc, 1986.
Legendas das figuras e créditos
Fig 1. – Lawrence Weiner, Empowerment Cannot Be Translated As Entitlement, 200 x 21,5 x 36 cm (H), Plywood, Plastic letters, red paint, screws, em rede, http://www.onestarpress.com/-bookshelves?debut_acc_1=6
Fig 2 – AAVV. Meaning in Architecture. Editado por Charles Jencks & Georges Baird, Barrie & Rockliff. Londres: The Cresset Press, 1969, 175 eHome Owners Hand Book. Nova Iorque: Housing Publications, 1935.


