Travessia Ciclável e Pedonal sobre a Ponte de Fareja

3 de Abril, 2025

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DESCRIÇÃO

A autarquia desafiou-nos a projetar uma nova travessia pedonal e ciclável entre as margens de Vagos e Sousa. A antiga ponte, construída a 27 de junho de 1855 e encerrada em 1978, encontra-se atualmente em ruínas e deve ser preservada como parte integrante da paisagem e da memória histórica do local. Contudo, conscientes de que as ruínas podem eventualmente desaparecer com o tempo, o principal desafio consistiu em conceber uma ponte "museu" que valorizasse a estrutura existente, mas que, simultaneamente, tivesse uma identidade própria e fosse capaz de perdurar e funcionar de forma autónoma no futuro.

Após análise e estudo das possíveis soluções para o local, identificámos que uma travessia em curva e contracurva seria a opção ideal, pois permitiria uma interação visual contínua com a ruína ao longo do percurso. A nova ponte foi concebida como uma verdadeira “ponte-museu”, proporcionando uma experiência única: a visão da ruína é permanente enquanto esta existir, sendo possível apreciá-la tanto durante a travessia.

Optámos por uma abordagem com linguagem limpa, utilizando materiais com cores e texturas que dialogassem com o meio envolvente, como o aço corten e a madeira. A organicidade da forma foi um elemento essencial para minimizar o impacto visual da estrutura na paisagem, assegurando que a nova ponte se integre harmoniosamente no ambiente natural, mesmo sem a presença futura da ruína.

Dado que o orçamento da obra não poderia exceder 180.000 € + IVA, tivemos de encontrar soluções que fossem simultaneamente funcionais e económicas. Assim, o método construtivo foi concebido para otimizar recursos: a ponte foi projetada em cinco partes, com cada segmento não excedendo 14 metros de comprimento. Esta abordagem eliminou a necessidade de transporte especial, reduziu custos logísticos e permitiu uma montagem ágil e eficiente no local. Além disso, a escala foi cuidadosamente ajustada ao programa, garantindo uma largura mínima de 2,50 metros para acomodar tanto a pista ciclável como o tráfego pedonal.

Nas transições das rampas da ponte, foram criados espaços de lazer com áreas planas, onde instalámos bancos. Estes espaços proporcionam pontos de descanso, locais para pesca e a oportunidade de apreciar a vista, tornando a travessia não apenas funcional, mas também um local de convivência e contemplação.

O volume da ponte apresenta-se de forma subtil, sem interferir na paisagem envolvente. A implantação da estrutura evoca as ondulações e curvas características do ambiente marinho, posicionando-se estrategicamente para se integrar visualmente com a ruína existente. Contudo, a nova ponte foi pensada para ser independente, garantindo que a sua relevância e funcionalidade permaneçam intactas mesmo na ausência futura da ruína, perpetuando o seu valor enquanto elemento de ligação, experiência e design.

Descrição Poética do projeto

O renascimento da ponte:

A ponte foi gasta pelas marés, ventos fortes e tempestades, com os pés sepultados na lama; esmagou o peso do tempo com o poder que o homem lhe deu.

Na passagem, muitos atravessaram, sem notar que a ria acabou. Só atravessaram.

Outros pararam para deslumbrar a paisagem, sentir o vento no rosto, o cheiro a maresia, o som das aves cantantes e o bailar dos caniços.

Agora, quebrada e afogada na ria, a ponte ruiu. Já não é passagem, apenas a miragem da ponte que desapareceu com ela.

E, de repente, renasce. E no espelho da ria, velha e nova são apenas uma: a travessia.

Atravessa a maré cheia e a maré vazia, guiada pela corrente, a que só Deus pertence. Atravessa.

Ensanguentada, com chapa exposta ao tempo, nasceu velha, nasceu crua; e agora é esta que luta contra o tempo, que, com o tempo, acabará no leito da ponte velha.

A ponte imaginada, riscada numa folha de outono, é a ponte que atravesso. É a ponte que vos é dada.